quarta-feira, 1 de julho de 2009

"Trabalho há mais de 30 anos com escola que não tem aula, série e

"Trabalho há mais de 30 anos com escola que não tem aula, série e
prova, e dá certo", diz educador português

Simone Harnik
Em São Paulo

http://educacao.uol.com.br/ultnot/2009/06/30/ult105u8320.jhtm

Idealizador da Escola da Ponte, em Portugal, instituição que, em 1976,
iniciou um projeto no qual os estudantes aprendem sem salas de aula,
divisão de turmas ou disciplinas, o educador português José Pacheco
afirma que as escolas tradicionais são um desperdício para os
estudantes e os professores.

"O que fiz por mais de 30 anos foi uma escola onde não há aula, onde
não há série, horário, diretor. E é a melhor escola nas provas
nacionais e nos vestibulares", diz. "Dar aula não serve para nada. É
necessário um outro tipo de trabalho, que requer muito estudo, muito
tempo e muita reflexão."


Aos 58 anos, o professor que classifica autores como Jean Piaget como
"fósseis", fez uma peregrinação pelo país. No trabalho de prospecção
de boas iniciativas em colégios brasileiros, Pacheco só não conheceu
instituições do Acre e do Amapá e diz ter somado cerca de 300 voos no
último ano.

Com a experiência das viagens, escreveu dois livros de crônicas: o
"Pequeno Dicionário de Absurdos em Educação", da editora Artmed, e o
"Pequeno Dicionário das Utopias da Educação", da editora Wak. Aponta
ainda que a educação brasileira não precisa de mais recursos para
melhorar: "O Brasil tem tudo o que precisa, tem todos os recursos e os
desperdiça". Veja a entrevista:

O educador português José Pacheco
UOL Educação - Em suas andanças pelo país, qual o absurdo que mais
chamou sua atenção?

Pacheco - O maior absurdo é que a educação do Brasil não precisa de
recursos para melhorar. O Brasil tem tudo o que precisa, tem todos os
recursos e os desperdiça.

UOL Educação - Desperdiça como?

Pacheco - Pelo tipo de organização. A começar pelo próprio Ministério
da Educação. Eu brinco, por vezes, dizendo que o melhor que se poderia
fazer pela educação no Brasil era extinguir o Ministério da Educação.
Era a primeira grande política educativa.

UOL Educação - Qual o problema do ministério?

Pacheco - Toda a burocracia do Ministério da Educação que se estende
até a base, porque a burocracia também existe nas escolas, à imagem e
semelhança do ministério. No próprio ministério, o contraste entre a
utopia e o absurdo também existe. Conheço gente da máxima competência,
gente honesta. O problema é que, com gente tão boa, as coisas não
funcionam porque o modo burocrático vertical não funciona. É um
desperdício tremendo.

UOL Educação - Como resolver?

Pacheco - Teria de haver uma diferente concepção de gestão pública,
uma diferente concepção de educação e uma revisão de tudo o que é o
trabalho.

UOL Educação - O que teria de mudar na concepção de educação?

Pacheco - O essencial seria que o Brasil compreendesse que não precisa
ir ao estrangeiro procurar as suas soluções. Esse é outro absurdo.
Quais são hoje os autores que influenciam as escolas? Vygotsky [Lev S.
Vygotsky (1896-1934)], Piaget [Jean Piaget (1896-1980)]? Não vejo um
brasileiro. Mas podem dizer: "E Paulo Freire?". Não vejo Paulo Freire
em nenhuma sala de aula. Fala-se, mas não se faz.

Identifiquei, nos últimos anos, autores brasileiros da maior
importância que o Brasil desconhece. Esse é outro absurdo. Quem é que
ouviu falar de Eurípedes Barsanulfo (1880-1918)? De Tomás Novelino
(1901-2000)? De Agostinho da Silva (1906-1994)? Ninguém fala deles.
Como um país como este, que tem os maiores educadores que eu já
conheci, não quer saber deles nem os conhece?

Há 102 anos, em 1907, o Brasil teve aquilo que eu considero o projeto
educacional mais avançado do século 20. Se eu perguntar a cem
educadores brasileiros, 99 não conhecem. Era em Sacramento, Minas
Gerais, mas agora já não existe. O autor foi Eurípedes Barsanulfo, que
morreu em 1918 com a gripe espanhola. Este foi, para mim, o projeto
mais arrojado do século 20, no mundo.

UOL Educação - O que tinha de tão arrojado?

Pacheco - Primeiro, na época, era proibida a educação de moços e moças
juntos. Só durante o governo Getúlio Vargas é que se pôde juntar os
dois gêneros nos colégios. Ele [Barsanulfo] fez isso. Ele tinha
pesquisa na natureza, tinha astronomia no currículo oficial. Não tinha
série nem turma nem aula nem prova. E os alunos desse liceu foram a
elite de seu tempo. Tomás Novelino foi um deles e Roberto Crema, que
hoje está aí com a educação holística global, foi aluno de Novelino.

UOL Educação - Por que o senhor fala desses autores?

Pacheco - Digo isso para que o brasileiro tenha amor próprio,
compreenda aquilo que tem para que não importe do estrangeiro aquilo
que não precisa. É um absurdo ter tudo aqui dentro e ir pegar lá fora.

UOL Educação - Qual foi a maior utopia que o senhor viu?

Pacheco - O Brasil é um país de utopias, como a de Antônio Conselheiro
e a de Zumbi dos Palmares. Fui para a história, para não falar em
educação. Na educação, temos Agostinho da Silva, que é um utópico
coerente, cuja utopia é perfeitamente viável no Brasil. Ou seja, é
possível ter uma educação que seja de todos e para todos. O Brasil,
dentro de uns 30 ou 40 anos, será um país bem importante pela
educação. São os absurdos que têm de desaparecer, para dar lugar à
concretização das utopias. Acredito nisso, por isso estou aqui.

Pacheco ministra curso no colégio Pueri Domus, na zona sul da capital
UOL Educação - Os professores são resistentes às mudanças?

Pacheco - Os professores são um problema e são a solução. Eu prefiro
pensar naqueles professores que são a solução, conheço muitos que
estão afirmando práticas diferentes.

UOL Educação - Práticas diferentes como a da Escola da Ponte?
Pacheco - Não são "como", mas inspiradas, com certeza. São práticas
que fazem com que a escola seja para todos e proporcione sucesso para
todos.

UOL Educação - Dentro da escola tradicional, onde ocorre o desperdício
de recursos?

Pacheco - Se considerarmos o dinheiro que o Estado gasta por aluno,
daria para ter uma escola de elite. Onde o dinheiro se desperdiça? Por
que em uma escola qualquer, que tem turmas de 40 alunos, a relação
entre o número de professores e de alunos é de um para nove? Por que
os laudos e os atestados médicos são tantos? Porque a situação que se
criou nas escolas é a do descaso. Esse é um absurdo.

UOL Educação - Onde mais ocorre o desperdício nas escolas?

Pacheco - O desperdício de tempo também é enorme em uma aula. Pelo
tipo de trabalho que se faz, quando se dá aula, uma parte dos alunos
não tem condições de perceber o que está acontecendo, porque não têm
os chamados pré-requisitos, e se desliga. Há um outro conjunto de
crianças que sabem mais do que o professor está explicando - e também
se desliga. Há os que acompanham, mas nem todos entendem o que o
professor fala. Em uma aula de 50 minutos, o professor desperdiça
cerca de 20 horas. Se multiplicarmos o número de alunos que não
aproveitam a aula pelo tempo, vai dar isso.

O desperdício maior tem a ver com o funcionamento das escolas. Os
professores são pessoas sábias, honestas, inteligentes e que podem
fazer de outro modo: não dando aula, porque dar aula não serve para
nada. É necessário um outro tipo de trabalho, que requer muito estudo,
muito tempo e muita reflexão.

UOL Educação - As famílias não estão acostumadas com escolas que não
têm classe, professor ou disciplinas. Querem o conteúdo para o
vestibular. Como se rompe com esse tipo de mentalidade?

Pacheco - Pode-se romper mostrando que é possível. Eu falo do que
faço, e não de teorias. O que fiz por mais de 30 anos foi uma escola
onde não há aula, onde não há série, horário, diretor. E é a melhor
escola nas provas nacionais e nos vestibulares. Justamente por não ter
aulas e nada disso.

UOL Educação - Por que uma escola que não tem provas forma alunos
capazes de ter boas notas em provas e concursos?

Pacheco - Exatamente por ser uma escola, enquanto as que dão aulas não
são. As pessoas têm de perceber que não é impossível. E mais, que é
mais fácil. Posso afirmar, porque já fiz as duas coisas: estive em
escolas tradicionais, com aulas, provas, com tudo igualzinho a
qualquer escola; e estive também 32 anos em outra escola que não tem
nada disso. É mais fácil, os resultados são melhores.

UOL Educação - Na concepção do senhor, o que é uma boa escola?

Pacheco - É a aquela que dá a todos condições de acesso, e a cada um,
condições de sucesso. Sucesso não é só chegar ao conhecimento, é a
felicidade. É uma escola onde não haja nenhuma criança que não
aprenda. E isso é possível, porque eu sei que é. Na prática.

UOL Educação - O professor que está em uma escola tradicional tem
espaço para fazer um trabalho diferente? O senhor vê espaço para isso?

Pacheco - Não só vejo, como participo disso. No Brasil, participei de
vários projetos onde os professores conseguiram escapar à lógica da
reprodução do sistema que lhe é imposto. Só que isso requer várias
condições: primeiro, não pode ser feito em termos individuais;
segundo, a pessoa tem de respeitar que os outros também têm razão. Se,
dentro da escola, os processos começam a mudar e os resultados
aparecem, os outros professores se aproximam. Não tem de haver
divisionismo.

UOL Educação - O senhor acha que a mudança na estrutura da escola
poderia partir do poder público ou depende da base?

Pacheco - Acredito que possa partir do poder público, mas duvido que
aconteça. As secretarias têm projetos importantes, mas são de quatro
anos. Uma mudança em educação precisa de dezenas de anos. Precisa de
continuidade. E isso é difícil de assegurar em uma gestão. Precisa
partir de cada unidade escolar e do poder público juntos.

--
João Telésforo Medeiros Filho

http://twitter.com/JoaoTelesforo

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