Dados do MEC apontam queda no número de formandos; perfil dos que
buscam profissão também mudou
Cada vez menos alunos têm se interessado pela carreira de
professor no Brasil, o que vem resultando em uma queda no número de
formandos em cursos de licenciatura. Essa redução vai na contramão do
crescente número de estudantes cursando graduação no País - hoje em
cerca de 5 milhões.
Em 2007, último dado disponível no Ministério da Educação (MEC),
70.507 brasileiros se formaram em cursos de licenciatura, o que
representa 4,5% menos do que no ano anterior. De 2005 a 2006, a
redução foi de 9,3%. E a situação é mais complicada em áreas como
Letras (queda de 10%), Geografia (menos 9%) e Química (menos 7%). Em
alguns Estados, faltam professores de Física, Matemática, Química e
Biologia.
A essa diminuição na procura pela profissão, soma-se o fato de 30% dos
docentes não terem curso superior completo, segundo o censo do
professor, divulgado na última semana (mais informações nesta página).
Apesar de o rendimento médio da categoria ser de R$ 1.335 mensais,
pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2007, não é
somente uma questão de baixos salários. "É fundamental tornar a
carreira de professor mais atrativa", defende Carlos Bielschowsky,
secretário de Educação a Distância do MEC. A partir de 2010, entra em
vigor o piso salarial nacional da categoria.
Em todo o País, as universidades públicas e particulares assistem a
uma mudança do perfil do aluno que escolhe o magistério. Os filhos da
classe média se desinteressaram pela carreira e estão dando lugar aos
de famílias das classes C e D.
Na Universidade Estadual do Rio, por exemplo, os candidatos a uma vaga
em Pedagogia apresentaram a menor renda familiar entre todos os
cursos. Dos 300 alunos aprovados em Pedagogia no vestibular do ano
passado, 107 têm renda mensal de até R$ 1.200. Apenas um deles tem
renda acima de R$ 12 mil. Em Direito, o quadro é exatamente o inverso.
Três aprovados têm renda familiar de até R$ 1.200 e 29 vivem em
família com renda acima de R$ 12 mil.
"Ninguém quer ser professor hoje em dia", resume Augusto Sampaio,
vice-reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio. Sampaio fala
especificamente do público alvo da instituição: jovens de classe média
cujos pais podem pagar mensalidades de R$ 1.500 para seus filhos se
tornarem advogados, médicos, engenheiros. Os cursos de licenciatura na
PUC são deficitários. Só não fecharam porque a universidade adotou há
13 anos um sistema para acolher alunos provenientes de cursos
pré-vestibulares da periferia carioca. Não é um sistema de cotas.
"Eles fazem o vestibular normalmente e, se forem classificados, ganham
bolsas de estudo", diz Sampaio.
A grande maioria vai para Serviço Social, Pedagogia e Licenciaturas,
cursos onde sobram vagas. "A maioria dos alunos de Pedagogia tem
bolsa." Não é meramente uma questão financeira. "Existe um
desprestígio muito grande da profissão", diz Maria Tereza Goulart
Tavares, diretora de faculdade de formação de professores.
Marcel Baran, de 19 anos, foi o contrário. Filho de comerciante e
professora de educação física, ele escolheu cursar licenciatura em
história, mas enfrentou resistência. Os amigos foram mais radicais.
"Cara, tá maluco? Tinha tudo para se dar bem numa profissão bacana e
vai ser professor?!", relata ele. "Meus amigos não entendem a minha
escolha porque para eles o que importa é a realização financeira. Eu
não quero isso", explica Marcel. "De todas as profissões que eu
poderia escolher, a que eu dou mais valor é o magistério."
Rede pública
Os baixos salários podem afugentar as classes A e B, mas a garantia de
emprego, principalmente em escolas da rede pública, atrai as classes
populares. A mudança de perfil do aluno de licenciatura mexeu com a
própria estrutura dos cursos. Grande parte dos candidatos a professor
vem do ensino público, que no último Exame Nacional do Ensino Médio
(Enem) teve 47 de nota média, contra 60,3 das escolas particulares.
O MEC admite que os alunos têm chegado à faculdade com deficiências de
aprendizado. "Precisamos fazer um colchão de acomodação para não criar
na universidade pública uma exclusão social", defende Bielschowsky.
Uma dessas deficiências foi constatada entre alunos do curso de
licenciatura em matemática, que apresentavam dificuldades elementares.
Criou-se, então, uma disciplina de pré-cálculo. Não resolveu. "Fizemos
então o cálculo menos um para recuperar o conteúdo ensinado do 6º ao
9º ano do ensino fundamental e o do ensino médio. Alguns alunos
ficaram pelo caminho. Outros conseguiram se formar", diz Bielschowsky.
Quem não atinge o nível desejado de conhecimento é reprovado. "Em
hipótese alguma podemos deixar cair a qualidade da licenciatura. Ao
contrário. Ela tem que melhorar", defende Bielschowsky. Para tentar
avançar na qualidade dos cursos de Pedagogia, o governo federal
anunciou na quinta-feira que pretende apertar o processo de
fiscalização dessa área. A partir de agora, o documento de
fiscalização que será usado para autorizar novos cursos e manter
antigos vai exigir laboratórios de informática e ensino, além de
contato com alunos desde o 1º ano da graduação.
"Não podemos colocar o aluno que tem dificuldade numa posição
inferior. Fazemos um trabalho que supera isso", diz Helena Amaral da
Fontoura, coordenadora do mestrado em Educação da Uerj, em São
Gonçalo. "Nós não pensamos em formação de professor pobre para aluno
pobre. Nosso aluno vai a congressos, até mesmo fora do País,
apresentar seus trabalhos com tudo pago pela universidade", defende
Ana Cléa Moreira Ayres, coordenadora de graduação da Uerj.
Nem todas as universidades conseguem fazer esse resgate de conteúdo. A
Secretaria da Educação do Rio abriu concurso para formar um cadastro
com 15 mil professores. Apareceram 76.833 candidatos, mas só 12.312
foram aprovados. As 2.688 vagas não foram preenchidas porque a
secretaria aumentou o nível de exigência. Os candidatos teriam que
acertar, na prova de língua portuguesa e interpretação de texto, 15
das 25 questões, o que equivale a nota 6. Em conhecimentos pedagógicos
e nos específicos de cada disciplina deveriam acertar a metade. "Não
se pode culpar as universidades sérias por esse quadro", diz Sueli
Camargo Ferreira, subcoordenadora de apoio à prática pedagógica da
Universidade Federal Fluminense.
Em São Paulo, a região do Campo Limpo, na zona sul, é a que mais perde
professores todos os anos e também onde é mais difícil repô-los. Entre
os motivos apontados por especialistas, além do estigma da violência,
está a falta de faculdades de Pedagogia e licenciatura em comparação
com outros bairros.
terça-feira, 2 de junho de 2009
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